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Descrição:
Adoecimento físico e psíquico, saúde e cura: O corpo como presentificação da biografia
Conferência proferida para médicos no Simpósio de Psicologia em Cardiologia realizado em São Paulo em 28 de abril de 2007
Trecho inicial da fala do Prof. Gilberto Safra
Me parece fundamental podermos voltar o nosso olhar e a nossa reflexão para a condição humana, a fim de que possamos compreender em profundidade a experiência do adoecimento do ser humano. O fato mesmo de falarmos em condição humana já implica, nesta nomeação, que existe toda uma compreensão que o ser humano tem uma condição peculiar entre os seres viventes, que ele demanda que nós possamos compreender, perceber, qual é a faceta desta peculiaridade a fim de que possamos compreender o seu adoecimento Há toda uma relação que podemos fazer entre a corporeidade humana e o corpo, o organismo dos animais. Entretanto há um aspecto importantíssimo, que não se pode perder de vista, inerente à pessoa humana, que empresta ao sentido de si mesmo e ao seu organismo facetas fundamentais que precisam ser acessadas tanto na saúde quanto no adoecimento. Uma das questões fundamentais para refletir sobre a questão da saúde e do adoecimento é lembramos que o ser humano tem um corpo vivo, sim, mas se trata de um corpo vivo lúcido. Isto quer dizer que embora possam existir algumas transformações funcionais da sua corporeidade, o ser humano, ao lado do seu adoecimento, ao lado da dor que pode vir a sentir em seu corpo, ele tem a possibilidade de se posicionar de tal maneira que pode saber da sua dor. O fato de se experimentar a dor, o sofrimento, e saber dela, de ter a possibilidade de ter uma lucidez dela, empresta um caráter peculiar ao sofrimento e à saúde. O fato mesmo de saber que está adoecido, saber de que modo a sua corporeidade acontece lhe ajuda a poder situar o seu adoecimento de forma peculiar. Uma criança, quando corre, quando cai, ao mesmo tempo em que ela ao cair, percebe que houve uma perturbação do seu equilíbrio, ela é informada de sua condição, da sua precariedade. Uma das facetas importantíssimas da condição humana é que, desde o seu nascimento, a experiência de estar vivo empresta ao ser humano a consciência da sua precariedade. Esta precariedade é conhecida por um bebê muito antes que haja desenvolvimento psíquico ou neurológico que lhe possibilite acessar cognitivamente a experiência de precariedade. Ela lhe chega pela instabilidade do seu corpo, pela necessidade fundamental que o ser humano tem, desde pequeno, de poder vir a ser cuidado.
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