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Descrição:
Seminário realizado em 27de junho de 2008 no LET - Laboratório de Estudos da Transicionalidade Aula 5: Percebendo a interioridade, poeticamente.
Trecho inicial da fala do Prof. Safra
Tivemos a oportunidade de ler o primeiro encontro entre Riobaldo e Diadorin, depois o segundo encontro e hoje vamos ler o trecho em que Reinaldo explicita para Riobaldo que seu nome é Diadorin. Esta cena está na pagina 168 da edição nº 19, cuja capa é violeta. A cena começa com o personagem do romance chamado Titão Passos. Pouco antes desta cena é interessante como Rosa descreve Titão Passos. Nesta apresentação, Titão Passos é colocado como sendo liso, bom. É homem que não tem rugas no caráter. Sua honestidade e sua franqueza são apreendidas de tal forma que é como uma lisura que se esclarece no próprio corpo. Habitualmente temos a perspectiva de que os aspectos mais fundamentais que podemos apreender da interioridade de alguém poderiam sê-lo noeticamente, isto é, para além de toda apreensão sensorial. Apreender numa perspectiva, portanto, não sensorial. Quando Rosa nos apresenta Titão ele nos fala de uma honestidade, de um caráter e lisura tal que se revelam no corpo daquele que está diante do Titão. A profundidade da honestidade e da lisura do homem se revela na própria corporeidade. Inverte-se a perspectiva mais tradicional que acredita que os aspectos mais signficativos seriam apreendidos de forma não sensorial. E aqui a verdade e profundidade do outro acontece no corpo daquele que está diante da pessoa em questão. Este fenômeno conhecido como hilético. Diante de uma experiência o corpo acontece como lugar de revelação do outro ou do fenômeno que temos à frente. A lisura é de tal ordem que, diante de Titão, não é possível mentir. Sua honestidade impede que a mentira surja no seu interlocutor. Impõe uma verdade tão profunda que acontece no corpo, que impede a mentira e que funda uma relação antes de tudo ética.
(neste ponto o professor faz a leitura do primeiro parágrafo da pg. 168.)
O impacto da notícia de que ele estaria em perigo implica essa cautela fundamental, pois a morte ronda por perto, não só quando se é descoberto, mas ela sempre ronda e por isso é preciso viver com cuidado. Diante da notícia, o impacto foi de tal ordem que só pode assimilar o que é dito ao longo do tempo. Não pude dar resposta. Situação que é tão chocante, que lhe tira a possibilidade de falar. Não poder ter resposta é não poder ter devir, é estar impossibilitado de fazer qualquer movimento, dar direção àquela experiência, o que significa que a experiência o atravessa, de tal maneira que o estanca no tempo.
SOBRE ESTES SEMINÁRIOS
Por que ler Grande Sertão,Veredas de Guimarães Rosa é importante para o terapeuta?
A primeira parte do curso se inicia pela resposta a esta pergunta. Introduzindo o conceito de "palavra quebrada", Gilberto irá mostrar a convergência entre a narrativa clínica significativa e a narrativa de Riobaldo.
Sensibilizar o terapeuta para o momento clínico criativo e mutativo é uma das metas destas aulas sobre Grande Sertão, Veredas. Poder perceber quando na clínica o dizer do cliente sobrepuja o dito é uma tarefa importante que nem sempre se aprende nos cursos voltados exclusivamente para a clínica. A literatura pode ser de grande ajuda neste refinamento clínico.
Guimarães Rosa, nesta obra, segundo as palavras de Gilberto Safra, nos coloca numa situação de limpeza de ouvido que nos obriga a receber o novo.
Outros temas deste percurso: como reconhecer o lugar que o texto nos coloca como ouvintes? Grande Sertão transita no registro da oralidade, que é também o registro da clínica. E como a experiência clínica Grande Sertão é um texto que nos atrái e nos draga para dentro de si.
Nestas duas aulas que compõem a primeira parte deste curso, Gilberto Safra irá ler e comentar desde o início do livro, tirando de cada trecho os ensinamentos pertinentes a uma clínica voltada para o Real, a Verdade, a experiência e a criatividade.
Segundo as palavras de Gilberto, que poderíamos transpor para a situação de terapeutas frente a um paciente: Tudo é novo, é estranho, enigmático e nós temos que para progredir, consentir que o texto nos afete e nos carregue.
AULAS ANTERIORES DESTE CURSO:
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